Câncer de endométrio: perfil molecular ajuda a definir o tratamento

No Setembro em Flor, mês de conscientização sobre os tumores ginecológicos, a oncologista Larissa Müller Gomes explica como a análise molecular do câncer de endométrio ajuda a estimar o prognóstico...

Câncer de endométrio: perfil molecular ajuda a definir o tratamento
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Durante muito tempo, o tratamento do câncer de endométrio foi definido principalmente a partir do que o médico conseguia observar no microscópio: como eram as células do tumor, o grau de agressividade e até onde a doença havia se espalhado.

Essas informações continuam sendo muito importantes. Mas a medicina passou a contar com uma ferramenta a mais: a análise das características moleculares do tumor, ou seja, das alterações presentes no DNA do tumor.

Isso é importante porque dois tumores que parecem semelhantes ao microscópio podem ter comportamentos muito diferentes. Conhecer a biologia de cada tumor ajuda a estimar melhor o risco de a doença voltar e, em alguns casos, a definir qual tratamento pode trazer mais benefício para aquela paciente.

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Atualmente, o câncer de endométrio pode ser dividido em diferentes grupos moleculares. Entre eles estão os tumores com alterações no gene POLE, aqueles em que há deficiência no sistema de reparo do DNA, chamado MMR, os tumores com alterações na proteína p53 e um grupo chamado NSMP, que não apresenta um perfil molecular específico.

Essa classificação não serve apenas para dar mais detalhes sobre o tumor. Ela pode ajudar diretamente na decisão sobre o tratamento.

Tumores com mutação no gene POLE, por exemplo, costumam ter um prognóstico muito favorável, mesmo quando algumas características observadas no microscópio parecem indicar uma doença mais agressiva. Já os tumores com alterações em p53 estão, em geral, associados a um maior risco de recorrência e podem exigir um tratamento mais intensivo.

Quando o DNA do tumor ajuda a escolher o tratamento

Um dos grupos que ganhou maior importância nos últimos anos é o dos tumores com deficiência no sistema MMR, sigla em inglês para Mismatch Repair.

Esse sistema funciona como uma espécie de mecanismo de revisão e proteção do DNA. Ele corrige erros que acontecem naturalmente quando uma célula se multiplica. Quando esse mecanismo não funciona adequadamente, a célula acumula alterações genéticas e, consequentemente, pode desenvolver mutações que favorecem o surgimento do câncer. Saber o status do MMR traz uma informação importante: alguns desses tumores respondem melhor à imunoterapia, tratamento que ajuda o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células cancerígenas.

Foi nesse contexto que a imunoterapia trouxe uma das principais mudanças recentes no tratamento do câncer de endométrio avançado ou que voltou após o tratamento.

Estudos mostraram que a combinação de imunoterapia com quimioterapia pode trazer benefícios, especialmente para pacientes cujos tumores apresentam deficiência do sistema MMR ou uma característica chamada MSI-H, que significa alta instabilidade de microssatélites. Por isso, atualmente, a avaliação do sistema MMR é recomendada para todos os carcinomas de endométrio.

Esse exame pode ter ainda outra função. Quando identifica uma alteração compatível com deficiência de MMR, pode levantar a suspeita de síndrome de Lynch, uma condição hereditária que aumenta o risco de vários tipos de câncer.

Nessas situações, a investigação pode ser importante não apenas para a paciente, mas também para seus familiares, que eventualmente podem precisar de acompanhamento específico.

Outros marcadores também podem fazer diferença

A análise molecular do câncer de endométrio não termina no MMR. Dependendo do caso, outras características do tumor também podem ajudar a orientar o tratamento. É o caso, por exemplo, da presença da proteína HER2 e dos receptores hormonais.

Essas informações podem abrir possibilidades de tratamentos específicos para determinados grupos de pacientes.

Outra frente que vem avançando é o desenvolvimento dos chamados anticorpos conjugados a drogas, ou ADCs. Esses medicamentos funcionam como uma espécie de veículo direcionado: utilizam um anticorpo para reconhecer determinadas características da célula tumoral e levar até ela uma substância capaz de destruir o câncer.

Essas estratégias ainda estão sendo estudadas em diferentes situações, mas mostram como o tratamento do câncer de endométrio está se tornando cada vez mais individualizado.

Sangramento depois da menopausa merece atenção

Mesmo com todos esses avanços, reconhecer os sinais da doença continua sendo fundamental.

Ao contrário de alguns outros tipos de câncer, não existe atualmente um exame de rastreamento recomendado para mulheres sem sintomas com o objetivo de detectar precocemente o câncer de endométrio. A exceção são as mulheres com diagnóstico conhecido de síndrome de Lynch. O principal sinal de alerta é o sangramento vaginal anormal.

Depois da menopausa, qualquer sangramento vaginal deve ser investigado por um médico, mesmo que seja pequeno ou aconteça apenas uma vez.

Antes da menopausa, alterações persistentes no padrão menstrual, como sangramentos fora do período habitual ou mudanças importantes no fluxo, também devem ser avaliadas.

A boa notícia é que a maioria dos casos de câncer de endométrio é diagnosticada em fases iniciais. Nesses estágios, as possibilidades de tratamento e controle da doença costumam ser maiores. Por isso, prestar atenção aos sintomas e procurar avaliação médica quando necessário continua sendo essencial.

O câncer de endométrio é um exemplo de como a oncologia está mudando. Hoje, não basta saber apenas onde o câncer começou ou até onde ele se espalhou. Também é importante entender como aquele tumor funciona biologicamente.

Essa informação pode ajudar o médico a estimar melhor o risco da doença e, em determinadas situações, escolher um tratamento mais adequado às características de cada paciente. É a chamada medicina de precisão: em vez de tratar apenas o câncer de um determinado órgão, a oncologia passa a considerar também as características específicas de cada tumor.

*Texto escrito por Dra. Larissa Müller Gomes (CRM/SP 180158 RQE 78497), Oncologista Clínica e membro da Brazil Health



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/cancer-de-endometrio-perfil-molecular-ajuda-a-definir-o-tratamento/