Centenas de imigrantes montaram acampamento em uma praia no território espanhol de Ceuta, no norte da África, nesta segunda-feira (3), após milhares de pessoas terem cruzado a fronteira na semana passada.
A Espanha estima que cerca de 69.500 imigrantes retornaram ao Marrocos nos últimos quatro dias, superando as estimativas iniciais de cerca de 50 mil chegadas à cidade na quinta-feira (30).
O número oficial de mortos no lado espanhol da fronteira é de 72, com 11 mortes registradas no lado marroquino.
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Ceuta e o outro enclave espanhol no norte da África, Melilla, ficam na costa mediterrânea junto ao Marrocos e enfrentam periodicamente tentativas de travessia por parte de imigrantes que buscam chegar à Europa.
Um vídeo da agência de notícias Reuters mostrou dezenas de imigrantes, a maioria da África Subsaariana, deitados na areia da praia de El Trampolín. Muitos estavam enrolados em toalhas para se proteger do vento, enquanto veículos do Exército e da polícia patrulhavam a estrada atrás deles.
O líder de Ceuta, Juan Jesus Vivas, disse à emissora Telecinco que entre 3 mil e 5 mil imigrantes permanecem no enclave, acrescentando que os dois centros de acolhimento de imigrantes, um para adultos e outro para menores, haviam “colapsado”.
A autoridade local Alberto Gaitan disse que a cidade estava processando 862 menores imigrantes, que possuem proteções legais especiais contra a deportação.
Repercussões diplomáticas
A crise alimentou a retórica anti-imigração em toda a Europa e desencadeou tensões diplomáticas na UE (União Europeia) em torno da política de fronteiras, com a Espanha acusando alguns parceiros de uma resposta prejudicial e polarizadora.
O ministro das Relações Exteriores espanhol, José Manuel Albares, disse nesta segunda-feira (3) que o país apoiou em outras ocasiões outros países da UE durante crises migratórias e que agora esperava apoio recíproco.
O bloco convocou uma reunião de emergência por videoconferência entre os ministros do Interior para discutir a crise na terça-feira (4).
Albares criticou duramente o governo da Itália, acusando-o de ajudar a amplificar a desinformação.
Ele também disse que o Marrocos ofereceu imediatamente apoio policial e não impôs condições à cooperação, permitindo o rápido retorno da maioria daqueles que fizeram a travessia.
No entanto, Vivas, de Ceuta, criticou Marrocos, afirmando haver uma percepção generalizada em Ceuta de que a cidade havia permitido, se não orquestrado, a crise.
“O Marrocos nos mostrou que não é confiável. Não há alternativa a não ser implementar todos os meios necessários para garantir que ele não possa fazer isso novamente”, disse Vivas ao jornal El País.
No domingo, o Ministério do Interior do Marrocos atribuiu o aumento do fluxo a informações falsas nas redes sociais, a redes de tráfico de pessoas e a uma interpretação equivocada de uma decisão judicial espanhola que proibia o retorno imediato de imigrantes interceptados no mar.
Essa posição estava em consonância com a visão oficial do governo espanhol.
Serviços de inteligência apuram caos
Segundo relatos do jornal El País e da rádio Cadena SER, citando autoridades a par do assunto, os serviços de inteligência espanhóis concluíram que o Marrocos não planejou a travessia em massa, mas permitiu que ela ocorresse.
Os controles de fronteira do Marrocos foram gradualmente flexibilizados durante o mês de julho e teriam sido removidos à medida que multidões avançavam em direção à passagem de Tarajal durante o feriado do Dia do Trono marroquino, segundo os relatos.
O Ministério do Interior do país não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
Em seu comunicado de domingo, a pasta afirmou que o Marrocos está “comprometido em fortalecer a cooperação e a coordenação internacional no combate à migração irregular e ao tráfico de pessoas”.
O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, disse a repórteres no sábado que a agência de inteligência estrangeira CNI, controlada pelo Ministério da Defesa, não o alertou sobre um aumento iminente.
O jornal El País informou nesta segunda-feira (3) que isso gerou tensões entre os dois ministérios.
Um porta-voz do Ministério do Interior minimizou as tensões relatadas.
A ministra da Defesa, Margarita Robles, recusou-se a dizer se o CNI dispunha de informações prévias sobre a travessia em massa, acrescentando que o trabalho do órgão é sigiloso e elogiando a atuação “excepcional” dos integrantes das forças de segurança espanholas.