Déficit nas estatais: quais empresas mais pressionam o governo
Relatório do Tribunal de Contas da União aponta que onze companhias publicas federais estão com situação econômico-financeira deteriorada a ponto de exigir aportes da União
O avanço dos prejuízos das empresas estatais federais preocupa o governo. O relatório “Estatísticas Fiscais”, divulgado pelo BC (Banco Central) na última sexta-feira (31) aponta que as estatais registraram um déficit de R$ 1,5 bilhão em junho.
Neste cenário, uma fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou em 2025 a deterioração econômico-financeira em onze empresas públicas de diferentes setores e apontou que parte delas pode exigir novos aportes de recursos do Tesouro Nacional nos próximos anos.
Segundo o tribunal, os problemas mais graves estão concentrados nos Correios e no setor nuclear, mas também atingem companhias portuárias, Casa da Moeda, Emgea e Infraero. O diagnóstico é de fragilidades estruturais, com perda de receitas, custos elevados, passivos trabalhistas e previdenciários e dependência de soluções temporárias para manter as operações.
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2026-08-02 13:25:15Para o especialista em contas públicas Murilo Viana, o caso dos Correios é o principal ponto de atenção. Ele explica que, atualmente, a estatal não entra diretamente no cálculo tradicional do resultado primário do governo porque é classificada como uma empresa estatal não dependente.
“Hoje, ele não impacta diretamente o déficit primário do governo, propriamente dito, porque o Correios é considerado uma empresa não dependente. Existe o déficit das estatais, mas ele não entra naquela métrica que acompanha o resultado primário do governo”, afirma.
Apesar disso, Viana alerta que a situação financeira da empresa coloca em discussão a manutenção dessa classificação. Segundo ele, uma eventual mudança dos Correios de estatal não dependente para dependente teria impacto significativo sobre as contas públicas.
“Ela tem cara, cheiro e tudo de uma estatal que não dá conta de se sustentar por si só. Se passar de não dependente para dependente, vira um problema gravíssimo, porque terá que entrar no orçamento normal do governo, com todas as restrições e dificuldades de execução”, explica.
Correios somam prejuízo de R$ 8,5 bilhões
O TCU classificou os Correios como o caso de maior gravidade entre as empresas analisadas. A estatal encerrou 2025 com prejuízo líquido de R$ 8,5 bilhões e perdeu cerca de 30% de participação no mercado de encomendas entre 2018 e 2025. As despesas com pessoal representam mais de 60% dos gastos totais da empresa.
Para manter a operação, os Correios contrataram R$ 12 bilhões em empréstimos com garantia da União em dezembro de 2025, com custo projetado de R$ 34,2 bilhões até 2040. O contrato prevê ainda um aporte mínimo de R$ 6 bilhões da União até 2027. A empresa também negocia uma nova linha de crédito de R$ 8 bilhões para 2026.
O plano de reestruturação dos Correios, segundo o TCU, enfrenta dificuldades. Até abril de 2026, o programa de desligamento voluntário tinha recebido 3.748 adesões, contra uma meta de 10 mil funcionários, enquanto a venda de imóveis arrecadou apenas R$ 11 milhões, distante da previsão de R$ 1,5 bilhão.
Na avaliação de Murilo Viana, o segundo maior foco de preocupação está no setor nuclear, envolvendo a Eletronuclear e empresas relacionadas.
“O conjunto do aparato de energia nuclear é um sistema articulado. A situação da Eletronuclear afeta todas as outras empresas”, afirma.
A Eletronuclear registrou prejuízo de R$ 142,1 milhões em 2025 e enfrenta dificuldades financeiras relacionadas principalmente às dívidas da construção de Angra 3 e ao custo de operação das usinas Angra 1 e Angra 2. Segundo o TCU, a empresa opera com custos superiores à receita coberta pela tarifa regulatória da Aneel.
A situação também pressiona a ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional), controladora da Eletronuclear, e a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), cuja receita depende em 99% das vendas para a estatal nuclear. O tribunal aponta risco de necessidade de aportes públicos para sustentar o grupo.
Além dos Correios e do setor nuclear, o TCU identificou dificuldades em companhias portuárias. A PortosRio foi classificada como de alto risco, com patrimônio líquido negativo, baixa geração de caixa operacional e necessidade de R$ 1,14 bilhão em aportes do Tesouro em 2024. A empresa acumula ainda provisões trabalhistas de aproximadamente R$ 435 milhões.
A Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) apresenta risco médio-alto, após registrar déficits operacionais entre 2021 e 2024 e depender de capitalização extraordinária do Tesouro em 2025. Já Companhia Docas do Ceará, a Companhia Docas do Pará e Companhia Docas do Estado da Bahia foram classificadas com risco médio, principalmente por pressão de custos e baixa execução de investimentos.
A Casa da Moeda também aparece no relatório do TCU. A empresa registrou déficits operacionais em 2022, 2024 e 2025 e vem utilizando receitas financeiras de reservas acumuladas para sustentar os resultados, estratégia considerada limitada pelo tribunal.
A Emgea (Empresa Gestora de Ativos), apesar de apresentar situação patrimonial confortável, enfrenta um desafio estrutural: o encerramento, previsto para dezembro de 2026, da gestão dos créditos do FCVS (Fundo de Compensação de Variações Salariais), sua principal fonte de receita.
Já a Infraero tem risco fiscal considerado baixo no curto prazo, mas com possibilidade de deterioração no médio prazo. A empresa possui cerca de R$ 2 bilhões em caixa, porém estima perda de R$ 983 milhões até 2030 em receitas devido às restrições operacionais no Aeroporto Santos Dumont.
Para o TCU, o problema central é a combinação de modelos de negócio fragilizados, custos rígidos, passivos elevados e demora na atuação dos órgãos responsáveis pela supervisão das empresas. O tribunal alerta que esses fatores aumentam a possibilidade de transformação de riscos em despesas efetivas para a União.
Na avaliação de Viana, o desafio está em evitar que empresas as que hoje não entram diretamente na conta do déficit público passem a exigir recursos permanentes do orçamento federal. “Quando uma estatal deixa de conseguir se financiar sozinha, o problema deixa de ser apenas da empresa e passa a ser um problema fiscal do governo”, diz.