Gás natural sem ilusões
Em artigo à CNN Infra, Jean Paul Prates sugere uma análise minuciosa para decidir quando convém ou não reinjetar gás nos campos de petróleo
O Brasil produz cada vez mais gás natural, mas isso não o tornou uma economia de gás abundante e barato. Em 2025, a média chegou a 179,2 milhões de metros cúbicos por dia. Em junho de 2026, alcançou 217,35 milhões, dos quais apenas 64,36 milhões estavam disponíveis ao mercado. A diferença alimenta a ideia de que bastaria reduzir a reinjeção para inundar o país de gás barato. A conclusão é sedutora, mas equivocada.
A maior parte do gás brasileiro é produzida no mar, associada ao petróleo e, no pré-sal, misturada a CO₂. Uma parcela é consumida nas plataformas; outra precisa ser tratada; e outra é reinjetada para manter a pressão dos reservatórios, recuperar petróleo e armazenar CO₂. Reinjeção não é desperdício. Cada campo deve ser avaliado com transparência para se saber quanto gás poderia ser vendido sem comprometer segurança e recuperação de óleo.
O mesmo realismo deve orientar o tal “Gas Release”. O instrumento reduz a concentração comercial ao obrigar um agente dominante a oferecer parte de seus volumes por mecanismos transparentes, favorecendo novos vendedores e preços competitivos. Reorganiza a venda do gás disponível. Não cria reservas ou gasodutos, nem transforma automaticamente reinjeção em oferta.
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2026-08-04 16:09:42Essa distinção evita promessas que a geologia não pode cumprir. O gás offshore brasileiro exige separação no mar, remoção de contaminantes, compressão, longos dutos e processamento. Os Estados Unidos têm imensa produção terrestre e infraestrutura capilar. A Argentina conta com Vaca Muerta. A Noruega construiu durante décadas sua rede para abastecer a Europa. Esses modelos não podem ser reproduzidos por ato administrativo.
A questão decisiva é onde o gás cria mais valor. Amônia, ureia, metanol e produtos petroquímicos dependem da molécula, assim como processos industriais de difícil eletrificação. Nesses casos, o gás favorece segurança alimentar, competitividade e agregação de valor. Queimá-lo onde a eletricidade é mais eficiente desperdiça uma matéria-prima escassa.
O Brasil encerrou 2025 com 86,8% de eletricidade renovável. Essa vantagem deve orientar a política industrial. Uma neoindustrialização fundada na promessa de gás offshore barato pode produzir subsídios permanentes, contratos rígidos e exposição ao Brent e ao câmbio. Incentivos devem considerar produtividade, emissões e evolução tecnológica, com metas e prazo definido.
Há também uma oportunidade negligenciada em terra. Campos onshore ficam mais próximos de cidades, indústrias e polos agropecuários, exigem projetos menores e permitem soluções regionais. O país precisa melhorar dados geológicos, licenciamento, infraestrutura e financiamento. Gás terrestre e biometano podem formar mercados distribuídos.
Uma política consistente deve combinar transparência sobre a reinjeção; Gas Release articulado ao acesso a gasodutos e unidades de processamento; estímulo à produção terrestre; e apoio industrial condicionado a resultados. O planejamento deve integrar eletricidade, gás, biometano, armazenamento e eficiência.
Esses são os eixos do recém lançado policy paper “Gás natural sem ilusões e da Evolução Energética: adicionar fontes, substituir tecnologias quando surgirem alternativas superiores e elevar a eficiência”, produzido por nós na Altiva Inteligência Estratégica.
O gás continuará relevante, se destinado às funções de maior valor econômico, industrial e estratégico. A concorrência disciplina o mercado; geologia, infraestrutura e tecnologia determinam quanto gás existe, quanto custa e onde utilizá-lo.
* Jean Paul Prates é sócio da Altiva Inteligência Estratégica. Foi senador da República e presidente da Petrobras.